Segundo o psiquiatra alemao Wolfgang Sperling, a humanidade é bipolar.Para ele a recessao e a pandemia sao so sintomas de uma doenca coletiva global.
O virus da gripe suina surgiu num momento auspicioso – para o virus, e claro. O agente causador da pandemia iniciou seu assalto a humanidade em abril, no Mexico. Seis meses antes, a quebra do banco americano Lehman Brothers aprofundou a maior crise economica em 80 anos. Se o mundo nao estivesse em recessao, talvez o surto de gripe nao tivesse virado pandemia, diz o psiquiatra alemao Wolfgang Sperling, na revista Medical Hypothesis. Sperling culpa os novos meios de comunicacao. A rapidez com que a imprensa noticiou a falencia do Lehman e o surto no Mexico gerou ondas globais de panico, so comparaveis a alegria gerada pelos primeiros sinais de retomada. Esse fenomeno faz a populacao oscilar entre a euforia e a depressao. “Se a humanidade fosse um paciente, ela seria bipolar.”
Wolfgang Sperling, de 45 anos, e psiquiatra e professor na Clinica Psiquiáarica e de Psicoterapia da Universidade de Erlangen-Nurnberg, em Erlangen, na Alemanha.
Sperling pesquisa os efeitos epidemiologicos do alcoolismo e dos disturbios de comportamento, como a síndrome do panico, a desordem bipolar e a esquizofrenia.
Wolfgang Sperling – O que houve foi um efeito domino. A quebra do Lehman Brothers desencadeou uma reacao em cadeia global de panico nos mercados financeiros, levando a quebra de outros bancos, e assim por diante. Tudo se deu muito rapido. Em questao de minutos, a onda de panico deu a volta ao mundo, atingindo praticamente todas as pessoas com conexao a internet. Quando se analisa aquela reacao em cadeia global, percebe-se que as novas midias tiveram papel crucial na crise. O Lehman Brothers foi apenas a primeira pedra. A culpa da crise e dos meios de comunicacao.
Sperling – Eu enxergo a pandemia como um efeito indireto da crise global. O novo virus influenza A(H1N1) surgiu no Mexico, em abril. Apesar de nao ser mais perigoso que o virus da gripe comum, o H1N1 deu origem a uma pandemia. O que explica a eclosao da pandemia e a existencia de uma conexao entre o surgimento do H1N1 e a crise mundial. Essa conexao sao os meios de comunicacao.
E uma hipotese muito ousada.
Sperling – Nao, nao e. Ha precedentes. Esta nao e a primeira vez que uma pandemia sucede a uma crise economica. Quem se lembra da sindrome respiratoria aguda grave (Sars, de suas iniciais em ingles), uma forma letal de resfriado que matou 800 pessoas na China e no Canada, em 2003? A Sars foi a primeira pandemia do seculo XXI. Ela ocorreu apos o estouro da bolha da internet, em 2000, e os ataques de 11 de setembro de 2001. Hoje, temos a gripe suina.
Sperling – Eu nao conseguia entender como podiamos ter duas pandemias num espaco tao curto de tempo. A resposta veio quando analisei os aspectos economicos e tecnologicos da questao. No mundo globalizado, as pessoas viajam de um continente para outro em menos de um dia. Elas estao conectadas 24 horas por dia. As condicoes estavam dadas para que os meios de comunicacao pudessem incendiar o planeta com a noticia da quebra do Lehman. Fizeram o mesmo com o H1N1. Nao importa o lugar, Alemanha, Brasil ou Fiji, todos sabem o que e a gripe suina. Ha cem anos, ninguem saberia.
Ainda nao esta clara qual seria a conexao entre a crise e a pandemia.
Sperling – A primeira vez que uma crise mundial e uma pandemia ocorreram em sucessao nao foi em 2009, com o H1N1, nem em 2003, com a Sars. Foi no fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o pior conflito que a humanidade viveu ate entao. A Grande Guerra foi o primeiro evento global, que conectou todo o planeta. Em 1918, apos quatro anos de conflito e 10 milhoes de mortos, as pessoas estavam cansadas, famintas, sem esperanca. Os milhoes de soldados nas trincheiras da Europa tinham vindo de todos os cantos do mundo e nao queriam mais lutar. Nao viam sentido no conflito. Foi quando eclodiu a Gripe Espanhola de 1918. Ela deu a volta ao mundo em seis semanas, mas a populacao so soube disso muito depois. A diferenca entre 1918 e 2009 e que hoje, gracas as telecomunicacoes, nossa sociedade e transparente. Sabemos o que ocorre do outro lado do mundo em tempo real. A crise bancaria foi um produto dessa sociedade transparente.
O crash da Bolsa de Nova York, em 1929, nao antecedeu a uma pandemia.
Sperling – E, mas o crash de 1929 talvez tenha sido mais localizado. Nao foi uma crise global que contaminou todos os mercados financeiros, pois eles nao eram interligados como hoje. Em tempos de globalizacao, se um banco alemao tem problemas de caixa, isso pode refletir imediatamente em bancos no Brasil. Nao foi assim em 1929. Por isso, aquela crise nao pode ser comparada a de hoje.
Sperling – Nao, nao sao. Gracas as telecomunicacoes, todo o mundo sabe tudo o que acontece o tempo todo. Esse bombardeio de informacoes cria sentimentos de euforia e de depressao. Na medicina, um paciente que alterna estados de euforia e depressao sofre de sindrome bipolar. Emocoes semelhantes estao por tras dos movimentos de alta e baixa do mercado acionario. Nao e novidade. Em 1996, Alan Greenspan, o entao presidente do Federal Reserve (o banco central americano), alertava para o risco do que chamou de “exuberancia irracional dos mercados”. Era o periodo de euforia da bolha da internet. Quando ela estourou, em 2000, a euforia deu lugar a depressao. E o que vemos hoje. O incrivel e que o sentimento de depressao que se alastrou pelo mundo ha um ano ja esta sumindo. As Bolsas voltaram a subir – sem razao aparente alguma. E o mesmo processo. Ninguem pode dete-lo. O mesmo se da com a pandemia. Nao se pode conte-la. Essa e a conexao entre dois eventos muito diferentes, um na esfera economica, o outro na esfera da saude. A humanidade sofre de sindrome bipolar global.
"A humanidade começa a manifestar claramente momentos
de alternancia emocional entre a euforia e a depressao"
Sperling – A sindrome bipolar e a alternancia brusca entre dois sentimentos muito diferentes que causam ansiedade. De um lado, temos as emocoes ligadas ao estado de depressao. De outro, aquelas ligadas ao estado de euforia, o que chamamos de manias. Para mim, a humanidade comeca a manifestar claramente momentos de alternancia emocional entre a euforia e a depressao.
A humanidade esta doente?
Sperling – A psicose bipolar e uma forma de doenca psiquiatrica. Se olharmos os acontecimentos dos ultimos anos, veremos que a SBG e o fator definidor de tudo o que vem acontecendo no mundo – nao so na orbita da economia. Esse fenomeno faz parte das transformacoes causadas na sociedade pelo advento dos novos meios de comunicacao.
Quais sao os sintomas da SBG?
Sperling – Os principais sintomas sao uma ansiedade incontrolavel e a dificuldade de reagir de modo adequado aos problemas. No limite, os sintomas se assemelham aos de um paciente com sindrome do panico. Quem sofre de panico escolhe fugir dos problemas, deixar tudo para tras. Jamais enfrenta a situacao que causa o panico para buscar uma solucao. Na SBG acontece o mesmo. Quando um banco quebra, todos saem correndo.
Sperling – Sim, mas de forma indireta. O sentimento global de depressao age como um facilitador para o advento da pandemia. Ha uma relacao clara entre os humores da economia e a saude publica. Vivemos numa sociedade de consumo, materialista. Todos sabemos como a falta de dinheiro pode fazer mal a saude. Ela atrapalha nossos relacionamentos, causa tensao, ansiedade e insonia. Esta provado que o aumento dos niveis de estresse esta relacionado a uma reducao na capacidade de defesa do sistema imune. Logo, e razoavel supor que uma crise economica mundial afete o sistema imune de centenas de milhoes de pessoas. E e quando a humanidade esta com a saude fragilizada que eclodem as pandemias.
Ha cura para a SBG?
Sperling – Precisamos criar alguma forma de terapia global. Por analogia, ha varios meios para tratar um paciente com panico. Usam-se remedios com a funcao de acalma-lo. Nao por acaso, acalmar os mercados e a prescricao usada pelas autoridades para deter o efeito manada nos momentos de panico. O mesmo se aplica aos meios de comunicacao. Acalmar a míiia significa dizer: “Nao reajam tao rapido, alardeando o mundo de que ha uma nova crise. Esperem!”.
Sperling – Se quisermos interromper esse comportamento irracional coletivo, sera preciso agir com despotismo. Esse e o problema que devemos enfrentar.

